Detalhamento do RADAR BIG 2050 - TESTE SUBIDA

Figura 1: RADAR BIG 2050.

Fonte: Iniciativa BIG 2050

A lógica conceitual do RADAR BIG 2050 está baseada no conceito de Serviços Ecossistêmicos (Millennium Ecosystem Assessment, 2003), considerando a divisão entre os Ecossistemas Marinho e Terrestre. Cabe destacar que para a classificação dos tipos de serviços e processos ecossistêmicos, foram consultadas diferentes literaturas, principalmente no que se refere ao ambiente marinho (Hattam et al., 2015; Liquete et al., 2013; Maes et al., 2016), visando complementar as informações apresentadas pela AEM (2003). A seguir, segue uma breve descrição de cada um dos níveis do RADAR (Figura 1) com os principais aspectos que caracterizam e definem cada nível:

  1. Saúde BIG: é o nível mais elevado do RADAR, cuja “nota” (de 0 a 1) representa o status de Saúde da BIG como um todo em termos de qualidade de Serviços Ecossistêmicos. O valor final da Saúde da BIG será constituído pela “nota” do nível imediatamente inferior relacionado aos Serviços Ecossistêmicos, separados por Ecossistema Marinho e Ecossistema Terrestre;
  2. Ecossistema/Território: é o segundo nível mais elevado, representando o status/nota de Saúde da BIG para cada um dos Ecossistemas considerados neste trabalho. A divisão adotada aqui, separando o Ecossistema Marinho e o Terrestre, levou em consideração o fato desses dois Ecossistemas apresentarem dinâmicas e processos diferentes, bem como a fácil percepção da sociedade dos limites desses dois ambientes/territórios.
  3. Categoria dos Serviços Ecossistêmicos: correspondem às categorias definidas pela AEM (Millennium Ecosystem Assessment, 2003). As categorias foram utilizadas tanto para o Ecossistema Marinho quanto para o Terrestre e incluíram: serviços de provisionamento ou de provisão, serviços de regulação, serviços culturais e serviços de suporte.
  4. Tipos de Serviços Ecossistêmicos: correspondem as classes de tipos de serviços ecossistêmicos (aqui entendidos como os benefícios utilizados pelas populações humanas). Na categoria serviços de provisão, por exemplo, há diversos tipos de serviços, tais como: provisão de alimentos, provisão de fibras, provisão de combustível, provisão de recursos ornamentais, entre outros. Neste sentido, a divisão de cada categoria em diferentes tipos de serviços pretende criar grupos de serviços com características semelhantes, de forma a possibilitar uma estrutura mais didática ao RADAR.
  5. Processos Ecossistêmicos: são definidos como interações complexas entre fatores bióticos e abióticos e que levam a um resultado final. De modo geral, os processos ecossistêmicos envolvem a transferência de energia e/ou matéria. Processos chave envolvem fluxos de energia, nutrientes, oxigênio e água. Os processos ecossistêmicos podem ocorrer dentro, fora e entre os organismos vivos e os fatores abióticos. Este conceito também inclui os processos socioculturais e econômicos e são considerados como sinônimos de funções ecossistêmicas. Estas definições foram baseadas em Wallace (2007).
  6. Indicadores de Estado: é o nível pelo qual ocorre a entrada dos dados. Adotou-se para esse nível a terminologia do DPSIR referente ao nível estado (state). Trata-se dos indicadores que irão avaliar a mudança no estado do ambiente na BIG. Os indicadores são constituídos por parâmetros que permitem direta ou indiretamente fazer inferências acerca dos processos/funções ecossistêmicos a que estão vinculados no RADAR. Cada indicador está vinculado a pelo menos um processo (nível acima), podendo, entretanto, estar vinculado a mais de um.

Cálculo do Índice de Saúde da BIG

Considerando a arquitetura do RADAR (Figura 1), é possível calcular o índice de saúde da BIG por média a partir dos valores (notas) dos Indicadores de Estado, obedecendo a hierarquia (estrutura das conexões) dos níveis intermediários. A média dos indicadores de estado que estão "ligados" a um mesmo processo ecossistêmico determina a nota desse processo ecossistêmico; a média das notas dos processos ecossistêmicos "ligados" a um mesmo Tipo de Serviço Ecossistêmico determina a nota desse Tipo de Serviço Ecossistêmico; e assim sucessivamente até chegar ao nível mais alto da hierarquia, a Saúde da BIG. Para exemplificar, considerando o esquema conceitual do RADAR apresentada a seguir na Figura 2, a média das notas dos Indicadores A1 e A2 irão gerar a nota do Processo Ecossistêmico B1; B1 e B2 irão gerar a nota do Tipo de Serviço Ecossistêmico C1; a nota do C1 será a mesma da Categoria de Serviço Ecossistêmico D1 por ser o único Tipo de Serviço ligado à D1; D1 e D2, por sua vez irão gerar a nota geral do Ecossistema Marinho, que em conjunto com a nota do Ecossistema Terrestre irão definir a nota da BIG como um todo, o Índice de Saúde da BIG.

Figura 2: Esquema conceitual e didático do RADAR visando facilitar entendimento do cálculo do índice da saúde da BIG.

Fonte: Iniciativa BIG 2050

No Quadro 1 (abaixo) é representada a lógica do cálculo ao longo de todo o RADAR a partir de uma simulação de notas e pesos considerando os códigos da Figura 2.

A estrutura do RADAR e o modelo de cálculo proposto permitem calcular, a partir das notas dos indicadores de estado, índices para todos os elementos (caixinhas) do RADAR, desde cada processo ecossistêmico até o índice único de saúde da BIG.

Diferentes níveis de comunicação de informações associadas aos indicadores

  • NOTA: cada indicador possui uma nota que varia de 0 a 1, permitindo a comparação da performance de cada indicador ao longo do tempo e o cálculo de um único Índice da BIG.
  • CLASSE: a nota de cada indicador é enquadrada em um sistema de 5 classes, permitindo a identificação rápida de indicadores de acordo com as respectivas cores.
    • Classe 1 - performance do indicador igual, superior ou ligeiramente inferior em relação à linha de base ou outra referência estabelecida como sendo ideal/ótima. Melhor classe de enquadramento dentre as 5 adotadas.
    • Classe 2 - performance do indicador inferior em relação à linha de base ou outra referência estabelecida como ideal, mas ainda em um nível aceitável/confortável. Segunda melhor classe de enquadramento dentre as 5 adotadas.
    • Classe 3 - performance do indicador inferior em um nível preocupante em relação à linha de base ou outra referência estabelecida como ideal. Classe intermediária dentre as 5 adotadas.
    • Classe 4 - performance do indicador criticamente inferior em relação à linha de base ou outra referência estabelecida como ideal. Segunda pior classe de enquadramento dentre as 5 adotadas.
    • Classe 5 - performance do indicador muito inferior, em um nível muito crítico, em relação à linha de base ou outra referência estabelecida como ideal. Pior classe de enquadramento dentre as 5 adotadas.
  • ALERTA: cada indicador tem limites associados à nota, abaixo dos quais um alerta é gerado. O Alerta é uma situação ou cenário em que um indicador merece atenção para uma avaliação mais detalhada devido a uma queda acentuada ou brusca em relação à medição anterior. Após a avaliação mais aprofundada o alerta pode ser mantido ou retirado, a depender se o fenômeno causador do alerta for considerado um comportamento histórico.

Serviços Ecossistêmicos

Segundo a Avaliação Ecossistêmica do Milênio – AEM, serviços ecossistêmicos são definidos como os benefícios que as populações humanas obtêm dos ecossistemas (Millennium Ecosystem Assessment, 2003). O conceito adotado pela AEM foi baseado nas definições de Costanza et al. (1997) e Daily (1997). A AEM divide os serviços ecossistêmicos em quatro categorias distintas, a saber: serviços de provisionamento ou provisão, serviços de regulação, serviços culturais e serviços de suporte (Millennium Ecosystem Assessment, 2003). Após a AEM surgiram diversas definições e classificações para o conceito de serviços ecossistêmicos (Boyd and Banzhaf, 2007; Fisher et al., 2008; Koellner, 2010; Nahlik et al., 2012; Wallace, 2007). Tais classificações criaram subcategorias (serviços intermediários, finais, benefícios) e incluíram as funções, processos e/ou os componentes abióticos dos ecossistemas como elementos estruturadores da produção de serviços ecossistêmicos (Boyd and Banzhaf, 2007; Costanza, 2008; Fisher et al., 2008; Koellner, 2010; Nahlik et al., 2012; Turkelboom et al., 2013; Wallace, 2007).

A despeito das novas classificações subsequentes à AEM, a maior parte dos programas de pesquisa e de gestão ambiental tem adotado a classificação da AEM, a exemplo do The Economics of Ecosystem and Biodiversity Foundation - TEEB (De Groot Rudolf et al., 2010) e a Common International Classification of Ecosystem Services (CICES), com algumas adaptações, embora, de modo geral, os tipos de serviços se encaixem, em sua maioria, nas mesmas categorias (Turkelboom et al., 2013).

Para fins deste trabalho, adotou-se o conceito de serviços ecossistêmicos, e respectiva classificação, utilizado pela AEM (Millennium Ecosystem Assessment, 2003). Para a estruturação do RADAR também se utilizou o conceito de processos ecossistêmicos, segundo Wallace (2007).

Referências Bibliográficas

Boyd, J., Banzhaf, S., 2007. What are ecosystem services? The need for standardized environmental accounting units☆. Ecol. Econ. 63, 616–626. doi:10.1016/j.ecolecon.2007.01.002

Costanza, R., 2008. Letter to the Editor Ecosystem services : Multiple classification systems are needed. Biol. Conserv. 141, 350–352.

Costanza, R., D’Arge, R., de Groot, R., Farber, S., Grasso, M., Hannon, B., Limburg, K., Naeem, S., O’Neill, R. V., Paruelo, J., Raskin, R.G., Sutton, P., van den Belt, M., 1997. The value of the world’s ecosystem services and natural capital. Nature 387, 253–260. doi:10.1038/387253a0

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De Groot Rudolf; Fisher Brendan; Christie Mike, 2010. Integrating the ecological and economic dimensions in biodiversity and ecosystem service valuation, The economics of ecosystems and biodiversity: The ecological and economic foundations. doi:10.1017/s1355770x11000088

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Hattam, C., Atkins, J.P., Beaumont, N., B??rger, T., B??hnke-Henrichs, A., Burdon, D., De Groot, R., Hoefnagel, E., Nunes, P.A.L.D., Piwowarczyk, J., Sastre, S., Austen, M.C., 2015. Marine ecosystem services: Linking indicators to their classification. Ecol. Indic. 49, 61–75. doi:10.1016/j.ecolind.2014.09.026

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Maes, J., Liquete, C., Teller, A., Erhard, M., Paracchini, M.L., Barredo, J.I., Grizzetti, B., Cardoso, A., Somma, F., Petersen, J.E., Meiner, A., Gelabert, E.R., Zal, N., Kristensen, P., Bastrup-Birk, A., Biala, K., Piroddi, C., Egoh, B., Degeorges, P., Fiorina, C., Santos-Mart??n, F., Naru??evi??ius, V., Verboven, J., Pereira, H.M., Bengtsson, J., Gocheva, K., Marta-Pedroso, C., Sn??ll, T., Estreguil, C., San-Miguel-Ayanz, J., P??rez-Soba, M., Gr??t-Regamey, A., Lilleb??, A.I., Malak, D.A., Cond??, S., Moen, J., Cz??cz, B., Drakou, E.G., Zulian, G., Lavalle, C., 2016. An indicator framework for assessing ecosystem services in support of the EU Biodiversity Strategy to 2020. Ecosyst. Serv. 17, 14–23. doi:10.1016/j.ecoser.2015.10.023

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Nahlik, A.M., Kentula, M.E., Fennessy, M.S., Landers, D.H., 2012. Where is the consensus? A proposed foundation for moving ecosystem service concepts into practice. Ecol. Econ. 77, 27–35. doi:10.1016/j.ecolecon.2012.01.001

Turkelboom, F., Raquez, P., Dufrêne, M., Raes, L., Simoens, I., Jacobs, S., Stevens, M., De Vreese, R., Panis, J.A.E., Hermy, M., Thoonen, M., Liekens, I., Fontaine, C., Dendoncker, N., Biest, K. van der, Casaer, J., Heyrman, H., Meiresonne, L., Keune, H., 2013. CICES Going Local: Ecosystem Services Classification Adapted for a Highly Populated Country, Ecosystem Services: Global Issues, Local Practices. doi:10.1016/B978-0-12-419964-4.00018-4

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